
O seu perfil renascia anatómicamente de trevas àrabes, do mundo imaginal que alguns autores falam e de que haverá portas halucionogénias para entrar nele, ou uma mão de dervixe ou dervixa, amiga ou amado, daimone perfeito, arreliante ou salvífico, que nos insufla e insuflados participamos no grande jogo das participações – não sei se é um hipnotismo derivado das alquimias neuronais, mas não o sendo passa por aí, e bem podemos dizer pois é a química que nos dá a graça, ou será a graça que faz a química?
E ele era assoprado por trombas marinhas, por trompas também e cornamusas e instrumentos de muitos ventos, com uma sonoridade medieval, maneirista, renascentista, balcanica, hindú, berbére mas wagneriana de modo nenhum. E havia risos desdentados de marinheiros antigos, dos de Colderige e dos da Nazaré e dos piratas tal qual vêm nos filmes, risos que igualavam a beleza do perfil, mas cuja desdentadura, rabelesiana por tradição, era já glosa infame que toda a beleza dita pura implora.
Elevava-se então como uma torre, das torres que se elevam a partir dos zigurates antigos, ou que se tornam ignóbeis aos olhos de deus a partir do momento em que se lê o Genesis, e se entendem as torres como possibilidade e dilaceração para além da historinha da corochinha ou de metáfora para cozinhar outras metáforas, e então elevava-se como uma torre o pescoço, era o pescoço, queria ir para o alto, queria fazer algo mais do que sustentar uma coisa mais ou menos redonda com alguns buracos e uma estranha morfologia, hóstil à perfeição dos arredondamentos, porque a cara alerta-se em quase todos os sentidos, incluíndo o sentido da pele respirar e aquecer e esfriar e saber as texturas das coisas a que nós reduzimos o sentido táctil porque as mãos são mais rápidas e apuradas no apuramento desses generos de circunstancias sensoriais, se não forem muito calosas, mas o rosto sente logo assim como o súor que escorre do cimo da torre, da sua cabeleira digna de palmeira e que desliza para outras partes, torre abaixo, para baixo da torre sem entrar em subterraneos ou labirintos ainda, e então vislumbrava-se qualquer coisa que acompanhava o riso dos marinheiros do parágrafo anterior, e escutavam-se as melodias, ainda muito espalhadas como borburinhos babélicos, porque a queda da torre foi a possibilidade da humanidade ser mais carnal e polifónica para os deuses sumérios se queixarem do barulho dos de cá de baixo, quer dos profetas quer dos grevistas, e por atacado dos que ficam um bocado calados, como o cão mudo da matilha que uiva e que será alvo das mesmas inclemências por mais que mesericordiosos se proclamem nas escrituras os deuses.
E consigo arrastava espólios, pilhagens, olhares espiatórios, malandrices refinadas, humidezas embevecidas, retorcidas devoções, extases de olhos fechados e abertos, emoções fortes a passarem de umas para outras, transições sintomáticas da possibilidade dos músculos da face dizerem o fluxo «sentimental», como um passeio de palácio a palácio, de alegoria em alegoria, de categoria em categoria, com essa certeza de que muitos artistas barrocos ou chineses já se tivessem dado ao trabalho de fazer a cartografia das variações da alma, e os palácios eram espeluncas, e as espeluncas eram muito vazias, com uma pobreza de fundo cada vez mais próxima da natureza, e assim se evaporavam os palácios nas pedras e nas ganas floridas de desagregar a domesticidade, como o típico exemplo de Angkor, plenitude opiada budista das ruínas que podemos admirar com uma cultura que vem de Propécio, passa por Poussin e Lorrain e deságua na mais vulgar das decoradoras a querer impôr o rústico, a encher de plantas como contraposto a uma coisa mínimal ou antigualha neo-romana.