quinta-feira, 2 de agosto de 2007

invocação de gatas


Consola-me Calíope, ou não me consoles. Dá-me sopas, ò musa. Arrebita-me orquestralmente. Desentranha-nos com teus clarinetes carnívoros desta obscuridade de amadores, e amamenta-nos com os teus gordos seios de musa desmuseologista. Senhora do troca o passo que nos troca nos passos, que nos faz desavindos depois de desidos. Noite curvando-se para a iguana, para o ibis, para a barata. Deusa dos noctívagos com olhos de gata...


(será que tu, miserável leitor, te derretes como um sorvete no deserto quando te afogamos numa prosa demasiado imprecisa, orgulhosa das suas metáforas irresponsáveis e com soberba quanto ao uso das descontinuidades?

não esperas algo mais cativante que te agarre ao fio comprometedor de um namoro epistolar entre o autor (fracassado) e o suposto receptor (desconfiado), mesmo que não seja necessáriamente narrativo?

sê o crítico feroz, e dá-nos uma espasmódica resposta a esta auto-voragem que pretende canibalizar o concreto)


Diz-me e volta-me a dizer, se demasiada não for a palha, ò querida Caliope-Calipso, os encavalitados eclipses da linguagem, os terramotos que abalam os mais firmes mantras, as efusões da afinada geometria, seja ela euclidiana, euleriana ou outras trapalhadas a muitas dimensões, diz também as legiões de palavras deslocando-se imperialistas, preparadas para batalhas exemplares com os papões canónicos, diz o estertor multicolor, a ironia como sempre fria, o tremor que murmura até nas franjas do universo, e o Ser sumarento como uma laranja.

E diz também, como uma invocação vermelha, as àrvores erectas e altas e omnias que abundavam no antigo Líbano e a busca da imortalidade por Gilgamesh, fala-nos dos estreitos, das peninsulas, dos lagos, dos furacões, dos continentes vistos muito de longe, das tempestades resplandecentes, dos incendios desfazendo cidades, das marés negras como toalhas para piqueniques de infecção, fala-nos com surpreendente agudeza, segreda-nos coisas arrepiantes, e as coisas que remanescem como imagem confusa de uma inquietação depois de despidos de palavreado.

Que neste ermo cantinho vos procuro como uma amante de Salomão, como uma grávida que não dispensa uma delicatessen, como um bravo que tentou dar a vida pela tribo e ficou só no meio de um ensopado de mortos.


Amaras e plausíveis são as palavras que me ofereces, e então eu inclino-me nas vistas, nas visões que se forjam nas clandestinidades da mente, e soltam-se devastantes paisagens, e parto para terra incógnita sem esperança de conquistas.

Ó Ciclope-Calíope
faz-me mais soberanamente teu tua
na ternura bamboleante
& incestuosa
das edipianas pastagens.



Diz,
diz,
diz!

Véus das coisas que se despedem da energia que chicoteia nas vértebras, linguas que lambém os sonhos sem terem que frequentar as academias surrealistas, rochedos negros da costa deixando-se acariciar por ondas que já mataram muitos marinheiros.

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